sexta-feira, 18 de junho de 2010

Manica - último dia

A cozinha da avó Inês em Manica
Inês lavando a cabeça de caneco
Aqui está a prova


Último dia em Manica. É natural que outras terras me marquem pela positiva, mas de certeza que não da mesma forma. Porque aqui vivi como uma semi-turista, fui uma estranha sem dúvida, mas privei com africanos, numa casa de africanos, num aglomerado de casas de tecto coberto de palha, redondas, feitas de uma argamassa ocre, e pintadas com barra castanha, algumas com desenhos geométricos com significado que desconheço e que ninguém me soube explicar.
Pude ter o privilégio de acordar ao som do canto dos galos, de sair à rua estremunhada e assistir à varrição do largo fronteiriço às casas, com as vassouras artesanais feitos de tanganhos, de assistir ao quotidiano do despertar na vila, das idas ao rio para buscar água, pude tomar banho de caneco e andar á vontade no bazar, perdida entre mercadoria, vendedores de tudo, regateando preços e alfaiates ajeitando trapos na lassidão africana.

Manica 10 de Agosto de 1999

A "tia" Farida

Quarto em Manica, providas da panóplia anti mosquito
Sorrindo para a posterioridade em banco de ripas coloridas e

fazendo pose junto a flamingos de pau

Big Baloiço!!!

A triplicar o prazer nestas paragens africanas



Tia Farida e cozinheira divinal acoplada



Manica 6 de Agosto 1999
Quarto em Manica
Reflexões obrigatórias sobre tia Farida no final de mais um dia em cheio


Até este momento, ainda não nos tínhamos dignado dedicar algumas linhas do nosso diário a alguma pessoa em especial.
Aqui em Manica, conhecemos uma mulher com M maíusculo - a tia Farida.
Embora não tenha laços familiares com a Lígia, é sua tia por afinidade.
Conhecemo-la ontem, não, conhecemo-la hoje. Isto é inacreditável!
Conhecemo-la hoje ao fim da manhã, depois de termos ido ao mercado. A Lígia entrou por uma porta, ao lado de uns homens que estavam a coser à máquina ( os alfaiates de rua) e nós seguimo-la. Entrámos num quintal com um baloiço enorme ( foi a primeira coisa que me saltou á vista).
A tia Farida estava na cozinha, veio ter connosco, entrámos na cozinha, cumprimentou-nos calorosamente, tratou-nos pelos nomes, fez-nos sentar, informou-nos que já tinha conhecimento sobre a "biografia" de cada uma de nós e tratou logo de nos ditar que já tinha feito um plano para a nossa estadia em Manica. Com a naturalidade de quem faz o melhor possível, com a maior sapiência possível. Nem questionou.
É uma Mulher especial, especial em tudo, se não soubesse que tinha andado na escola com a mãe da Lígia, nem lhe saberia calcular a idade.
Estava sentada à mesa, os olhos brilhavam, tem uma linguagem gestual inacreditavelmente bela e energética.
É de uma naturalidade, de uma espontaneidade, de uma leveza, que eu dei comigo a pensar que esta mulher não está bem aqui em Manica, é demasiado livre, demasiado espontânea, para viver num meio pequeno; mas segundo a Lígia ( e tem razão), se não vivesse aqui, não seria assim, viveria de asas cortadas.
Falou tanto, de tudo, dela, da vila, do que deveríamos fazer e ver, apresentou-nos a tantas pessoas, combinou lanches, marcou entrevistas, quase. Meu Deus!
Despedimo-nos dela e prometemos voltar. à tarde, quando passámos pela loja dela, estava ao telefone. Estava a falar com uma amiga da Beira, um assunto sério de família. Interrompeu a conversa à nossa entrada e tratou de fazer as apresentações via telefone, com boas propostas de casamento pelo meio, com a contrapartida de reconversão ao islamismo.
A tia Farida é eléctrica, segundo a opinião da Lígia e da Tucha, mais eléctrica do que eu, consegue superar-me.
E com o desvairo das conversas dela, esquececemo-nos do que a mãe da Lígia nos tinha encomendado e tirou-nos a disponibilidade de escrever sobre o resto, porque conhecer uma pessoa destas, implica infalivelmente escrever sobre ela.
Apresentava-nos da seguinte forma: aqui estão três amigas minhas: a Inês, a Tucha e a Gita. A Tucha é de Moçambique, de Lichinga - antiga Vila Cabral; a Gita é neta do Perino, filha do João e da Fátima e a Inês é amiga delas, mora ao pé, são todas amigas e vieram a Manica.
Vomitava todas estas informações em segundos.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Manica - 5 de Agosto

Confesso que desde que cheguei a Moçambique, ainda não tinha tido uma experiência tão espectacular como hoje.
Estou neste momento na varandada casa da avó da Lígia, que por sinal também se chama Inês, tenho dois gatinhos pequeninos, quase aos meus pés.
Isto fica no coração de África, de uma África recôndita, daquelas atmosferas que se veem nos filmes sobre destinos africanos, fora dos circuitos turisticos.
Aqui há equilibrio. A casa, as cores, os sons, a beleza da simplicidade.
Chegámos de noite. Estou maravilhada.
Vou dormir num sítio único! Estou num sitio único!
Vou ter que registar isto tudo com com uma maior lucidez.
Bendito o momento em que decidimos fazer o trajecto Beira / Manica. Não teríamos tido ideia alguma como é África.
Até manguana!
O dialecto que se fala aqui é o shona e até manguana é até amanhã.

Beira - Primeiras impressões

Viva o nosso Toyota Corolla vermelho!!!

Casa da tia da Lígia na Beira
(minutos antes de nos fazermos à estrada)


Acordámos de madrugada. Quando saímos à rua, ele era gente a circular por todo o lado, o mesmo trânsito desordenado, mas menos intenso que em Maputo. Íamos esbarrando por duas vezes numa meia dúzia de homens , que transportavam um cabo metálico compridissimo.
Da Beira, só ficámos a conhecer as casas onde entrámos ( a da tia da Lígia e da tia emprestada), a vista ao nosso alcance, o passeio exterior de um mercado de rua, ao lado da casa da tia da Lígia, vimos os chapas a passar e reconhecemos os autocarros laranjas nda Carris, que circulam na Beira ( alguns deles já abandonados em cemitérios de veículos).
Nós alugamos um carro!
Começámos por tratar do assunto pelo telefone, ficaram de nos entregar o carro a paretir das nove, às nove e tal voltou-se a telefonar, quase que confessaram que se tinham esquecido de nós.
Para além do mais, tivémos de ir ao aeroporto, fazer o contrato. Isto aqui não se morre mesmo de stress.
Vamos ter carro até dia 11 ao meio dia. É um Toyota Corolla vermelho ( ao gosto da Lígia e da cor do chakra da raíz - condiz com África, sim senhor).
A Lígia é quem conduz, não é a primeira vez que conduz à esquerda, mas parece-me à vontade.
É certo que metemos o almoço pelo meio , mas começámos a tratar do aluguer antes das nove e só às 13.16m é que botámos o "pineu" à estrada.
Estamos a andar em direcção ao interior, a Tucha está a filmar um homem que vai deitado, todo escarrapachado, em cima de um camião altissimo, todo ageitadinho, em cima dos gargalos alinhados de garrafas sprite vazias.
A Lígia, há pouco, chamou a atenção para o facto de a paisagem estar a mudar. Perto da Beira eram os coqueiros e as palmeiras, agora são as mangueiras que ladeiam a estrada.
A estrada está boa. Em Outubro vai haver eleições.
Vamos para Manica, para casa da avó da Lígia. Vamos ter que deixar o carro ainda a aalguma distância da casa. Isto não é um todo-o-terreno(nem mesmo que fosse).
E cá estamos nós,! As três sozinhas dentro de um carro, estrada fora, numa estrada sem placas, também não há que enganar, é sempre em frente). Vamos atravessar a ponte sobre o rio Pungue. Pesca-se camarão, aqui.
Trajecto Beira / Manica - 5 de Agosto 1999

Beira 5 de Agosto 1999

Ontem à noite chegámos à Beira. A Lígia estava no aeroporto à nossa espera. Ficámos finalmente as três juntas!
Fomos de armas e bagagens para casa de uma tia da Lígia onde jantámos. E depois fomos dormir a casa de uma tia-avó emprestada da Lígia, com todas as nossas armas e bagagens.
O problema é que a Lígia não parecia ter bem a certeza se era aquela a casa, ali de chave na mão, a tentar abrir a porta, depois de termos subido dois lanços de escada à luz de isqueiro. O isqueiro escaldava por entre os dedos, e ela já com incertezas: será mesmo que é aqui? Acontece que era quase meia-noite, aqui anoitece cedo, aquela hora era demasiado tardia para quem começa o dia de madrugada. Amanhece cedissimo.
Fizémos planos para os próximos dias, para o período em que vamos permanecer no Cordão da Beira, antes de voltar a Maputo a 11 de Agosto.
Estendemos o meu saco cama no quarto, no chão, onde dormi eu e a Lígia, a Tucha dormiu em cima da cama, de pijama vestida, dentro do saco cama. Aquilo é que foi transpirar!
É claro que acendemos um "incenso" anti mosquitos, um anti mosquitos de colocar na ficha, os stick Tabard no corpinho, na roupa , tivémos o cuidado de os deixar abertos para o que desse e viesse. A Guerra é a Guerra!

A caminho da Beira


4 de Agosto de 1999


Vai começar finalmente a nossa aventura a três. Vamos finalmente ter com a NOSSSA GENERALA EM VIAS DE EXTINÇÂO.


A Tucha já domina as ruas. è a generala das ruas, eu sou a generala dos descobrimentos, das novidades, a Lígia, que por enquanto ainda está no quartel general da Beira, está prestes a demitir-se. É a generala em vias de extinção.

De grandeza só lhe resta a altura. Para generalas céa estamos nós.

A nossa primeira viagem de chapa

Hoje viemos para Maputo de chapa. Foi a nossa primeira experiência, é claro que tivemos um guia.
O chapa vinha cheio, ficam todos coladinhos uns aos outros, o cobrador (que só cobre no fim), ele é a melhor forma de nenhum passageiro escapar ao pagamento , sai do chapa nalgumas paragens, abre a janela e comanda as tropas , isto é, dá ordens para nós chegarmos mais para tràs, dar um geitinho, em português e em ronga , para que não haja mal entendidos.
O primo da Tucha, que nos serviu de guia nesta primeira incursão, sentou-se passado pouco tempo. Que quem sabe, sabe. A experiência ajuda.
O cheiro acre a catinga paira no ar, quem não tem estas experiências, também não sai de Moçambique, com uma noçaõ aproximada da realidade.
Em todas as paragens o cobrador grita a designação do local, ageitam-se os novos ocupantes e a viagem prossegue.
Eu só me sentei no fim. Fiz praticamnete todo o percurso de pé e bem apertadinha. Foi a valer!

Trajecto Matola Maputo
Primeira corrida de chapa (e única à hora de ponta)
4 de Agosto 1999

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ainda Maputo City - Primeiras impressões

Calcorreámos Maputo a pé até ao Piri Piri, restaurante ex-libris da cidade.
Os vendedores de artesanato atacam. Temos todo o ar de turistas. Não hámesmo como disfarçar.
Almoçámos copiosamente no Piri Piri: entrada de camarão cozido, franguinho à Piri Piri, bem
regadinho com duas laurentinas.
Almoçámos na esplanada, assediadas por vendededores de tudo.

Maputo
3 de Agosto 1999

Maputo City

Hoje, quando me levantei, espreitei pelas venezianas e vi o empregado a varrer a alameda do
jardim da "nossa" casa na Matola. Exactamnete como o tinha visto ontem, no mesmo sítio, ao mesmo ritmo, era como se o tempo não tivesse passado. A algarviada em ronga continuava, embalando-me prazerosamente.

Primeiras impressões
3 de Agosto 1999

A minha primeira maçaroca assada

E esquecia-me, como é possível? Esquecia-me de descrever a experiência que tive ontem, quando troquei a minha primeira nota de 10 000 meticais e comprei maçaroca assada a 1000 meticias cada.
Já tinha anoitecido, parámos o carro para comprar a maçaroca e enquanto esperava, acocorei-me ao lado da vendedora que algarviava comigo um português quase imperceptível entrecortados com sorrisos fartos e largos.
Quando saíu a primeira maçaroca que me era destinada, sentei-me ali ao lado dela, o cheirinho das maçarocas e o fumo a entrarem-me nariz adentro, a atmosfera africana, os miúdos de rua, aquela algarviada toda em ronga, e eu, ali sentada a roer a primeira maçaroca assada da minha vida.
Não há palavras, nem filme, nem pelicula que pudesse descrever tamanho maravilhamento.

3 de Agosto 1999

3 de Agosto 1999


Quando saímos à rua foi o impacto.
A primeira coisa que me saltou à vista foram os táxis, velhos, a cair, carros velhissimos.
E o meu primeiro impacto com África, foi mesmo o trânsito caótico, a condução à esquerda, nem se percebe bem se há regras de trânsito. As estradas pareceram-me autênticas pistas de carros de choque.
As pessoas mal vestidas, quase andrajosas. Quase que é imoral o nosso bem estar e a nossa roupinha casual para férias.
Fomos trocar dinheiro ao Centro. Os meus olhos não chegavam para ver tanta gente diferente, vendedores de beira de estrada, chapas podres de velhos com gente pendurada, o trânsito desordenado a gravitar à nossa volta.

3 Agosto 1999


Cheguei ontem.
Depois de uma noite em branco, completamnete exausta, ainda consegui registar algumas impressões.
Ontem, quando cheguei , fiquei logo perfeitamnete deslumbrada.
O aeroporto parece um simples hangar, o caos é uma palavra pouco exacta para descrever
a atmosfera.
Largas dezenas de pessoas, tudo ao molho, a bagagem rola em passadeiras e as pessoas amontoam-se aos encontrões e numa berraria considerável, para agarrarem desesperadamente os seus haveres.
Logo de seguida, uma outra concentração de gente numa sala com meia dúzia de secretárias antigas, de madeira, presididas por guardas alfandegários que vasculham as malas. A minha não vasculharam. Nem a mala nem a mochila: perguntou-me o que é que eu tinha lá dentro e como eu lhe tivesse respondido que não sabia, que tinha feito as malas à pressa, ele mandou-me passar e ditou que não precisava de abrir.
Sorriu dengoso e mandou passar. Em África não se morre de stress.

2 de Agosto 1999




Hotel Polana


Não tenho tempo, nem condições para escrever.
Estou exausta. Estou deslumbrada.
É outro mundo, outras pessoas, é tudo diferente.
Fiz montanhas de coisas hoje.

Inês Zorro

2 de Agosto 1999 00.25

Já estamos no ar há três horas. Ainda temos sete horas pela frente. Há oceano e continente africano a atravessar. A viagem deve tornar-se cansativa,, é um non stop de calcorrear espaço e não há quase nada para fazer. Já passaram três horas, tomámos um aperitivo, jantámos, fomos à casa de banho, estamos confinados a um espaço diminuto, dificil de conjugar com a expectativa gigantesca em chegar.
Apagaram as luzes. Uf!!!
São cinco da manhã. Acenderam as luzes e vão servir o pequeno almoço.
Não estamos junto à janela, mas conseguimos ver o nascer do sol, de soslaio, pelas janelas do outro lado e é qualquer coisa de deslumbrante.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Moçambique - Agosto 1999


Vou ter saudades de Moçambique, do andar dengoso deles, dos sorrisos, da mafiosidade ingénua,
dos dentes brancos a brilharem em rostos cor de ébano.
Vou ter saudades de coisas tão simples como me sentar na esplanada do Continental e esperar um tempão por um café ou uma cerveja Laurentina, servida por um empregado molengão.
Apesar de Plágio, faço minha a máxima:
MOÇAMBIQUE É MANINGUE NICE!

Maputo, Agosto 1999
Inês Zorro
In Liendzo